• Vinho Magazine

Colheitas de inverno

O Sudeste do Brasil faz alguns dos melhores vinhos do país graças à técnica de poda invertida…


Por: Maria Edicy Moreira



As coisas estão apenas começando. Empreendedores investem em pequenas vinícolas, a maioria em processo de teste de varietais de uvas para seus terroirs, construção das cantinas ou driblando desafios para fazer bons vinhos... Porém, não seria exagero dizer que em um futuro não muito distante o Sudeste poderá ser um grande produtor de vinhos finos de inverno, principalmente os estados de São Paulo e Minas Gerais.

Novas vinícolas multiplicam-se pelo Sul de Minas Gerais (Andradas, Três Corações, Caldas, Cordislândia, Boa Esperança...) e em diversas regiões de São Paulo, começando pelas redondezas da capital, como Louveira e Jundiaí, passando por Vinhedo, Amparo, Campos do Jordão, Espírito Santo do Pinhal, São José do Rio Pardo, Ituverava, Itobi, Divinolândia, entre outras, todas apostando na dupla poda para produzir vinhos finos de inverno.

Além disso, tradicionais vinícolas produtoras de vinhos de mesa, de São Roque e Jundiaí, por exemplo, começam a investir nas viníferas por este sistema.

“Muita gente está empreendendo nesse campo, seja por hobby, teste ou na busca por empreendimentos comerciais, afirma Daniel Fernando Miqueletto, proprietário da Vinícola Micheletto, de Louveira-SP, que além de investir em vinhos finos, assessora oito vinhedos em sua vizinhança.

Para Marcos Verrone, proprietário da Casa Verrone, ainda há muito a fazer, mas os sinais estão sendo positivos e a expectativa é que as áreas de produção de vinhos finos no Sudeste aumentem nos próximos anos. “Tem tudo para dar certo. São Paulo, por exemplo, é o Estado que mais consome vinhos no Brasil e nada como ter produção local.”

Fábio Góes, enólogo da Vinícola Góes, fundada em 1963, que fez e faz história na produção de vinhos de mesa e agora investe também na produção de vinhos finos, é outro entusiasta com a produção de vinhos de inverno em São Paulo, seja pela evolução tecnológica e a inovação dos players do setor com a introdução da dupla poda, seja pelo potencial/tamanho do mercado consumidor próximo (São Paulo), seja pelo potencial do enoturismo como ferramenta de alavancagem.

A história da vitivinicultura no Sudeste passa pela chegada dos imigrantes italianos e portugueses que desembarcaram no final do século 19. Esses imigrantes estabelecidos no Sudeste, Sul de Minas Gerais e São Paulo também fizeram da região grande produtora de uvas de mesa com as varietais americanas Niágara, Isabel etc. Também produziram e produzem vinhos de mesa em dezenas de vinícolas em São Roque e Jundiaí em SP e Andradas em MG, por exemplo, vinícolas que tiveram seu auge ao longo do século 20.

Com o tempo muitas dessas vinícolas produtoras de vinhos de mesa foram desativadas, embora um bom número ainda resista.



O segredo testado e aprovado para superar os problemas em relação ao cultivo de uvas viníferas no Sudeste está na dupla poda ou poda invertida, técnica desenvolvida em 2001 pelo pesquisador da Epamig (Empresa Agropecuária de Minas Gerais), Murillo de Albuquerque Regina (recém-aposentado) com a colaboração de pesquisadores do Núcleo Tecnológico Uva e Vinho, do Campo Experimental de Caldas-MG.

Atualmente o pesquisador Murillo de Albuquerque é vitivinicultor e presidente da Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno, que já tem 25 associados e criou uma marca coletiva, denominada “Vinhos de Inverno”, para ser usada nos vinhos dos associados certificados.

A técnica da dupla poda da Epamig implica na inversão do ciclo da videira, alterando para o inverno o período de colheita das uvas destinadas à produção de vinhos finos. Para que isso aconteça são realizadas duas podas: a primeira em agosto, após a colheita de inverno, e a seguinte em janeiro.

Devido ao tempo seco com pouca chuva, grande amplitude térmica com dias quentes e noites frias as uvas colhidas no inverno, além de ser mais saudáveis, livres da podridão causada pelas chuvas de verão, apresentam mais aroma e maior concentração de açúcares e polifenóis que aumentam a qualidade do vinho.

De acordo com a enóloga da Epamig Isabela Peregrino, os vinhos tintos elaborados com uvas melhoradas pela dupla poda são encorpados, ricos em cor, com teor alcoólico acima de 13% e boa acidez, propícios ao amadurecimento em barricas de carvalho e longo tempo de guarda. Os vinhos brancos mostram-se muito aromáticos e com excelente frescor.

Além da técnica de dupla poda da Epamig, desenvolvida especificamente para a produção de vinhos de inverno, adotada por mais de 30 vinícolas de São Paulo e Minas Gerais, existem produtores de vinhos finos nesses dois Estados que trabalham com a técnica de dupla poda independentes da empresa de pesquisa mineira. Estas vinícolas também fazem a poda em agosto e janeiro e os resultados são praticamente os mesmos: colheita e produção dos vinhos no inverno. Algumas vinícolas de São Paulo como Terrassos e Marchese di Ivrea, fazem dupla poda e também duas colheitas: no verão e no inverno. Seja com a técnica da Epamig ou outras existentes no meio vitivinícola, a verdade é que a dupla poda, que também é utilizada de forma semelhante na Índia e na Tailândia, pode ser a alternativa para a indústria do vinho ressurgir no Sudeste, focada nos vinhos finos de inverno.


INCUBADORA

Para impulsionar as vinícolas que começam a surgir no Sudeste a Epamig instalou em seu Campo Experimental de Caldas - MG uma incubadora de vinícolas por meio da qual coloca seus pesquisadores em campo para orientar no cultivo das videiras, Quando os primeiros frutos são colhidos, se a vinícola ainda não tiver sua cantina, a empresa de pesquisa processa as uvas e produz os vinhos em suas instalações, orientando o novo vitivinicultor até que ele possa produzir seus próprios vinhos.

Desde a instalação da incubadora, mais de 30 vinícolas já recorreram à Epamig. A primeira a usar a dupla poda da empresa de pesquisa e o apoio de seus pesquisadores foi a vinícola Primeira Estrada, depois vieram Luiz Porto, Vinhos Maria Maria, Mosconi, entre outras de Minas Gerais, e Casa Verrone e Micheletto, entre outras de São Paulo. A Primeira Estrada, que tem como sócios a empresa Vitácea Brasil,do pesquisador aposentado Murillo de Albuquerque e o médico e fazendeiro Marcos Arruda, foi também a primeira a ser incubada na Epamig.

Marcos Arruda é proprietário da Fazenda da Fé, em Três Corações-MG, onde estão os vinhedos da Primeira Estrada e onde, em 2001, começaram as pesquisas da Epamig para desenvolvimento da dupla poda voltada à produção de vinhos finos no inverno.

“A região possui clima e solos adaptáveis a colher uvas no inverno, com excelente potencial de amadurecimento”, afirma Murillo de Albuquerque. O terroir apresenta altitude de 950 metros com verão chuvoso e inverno seco e com noites frias. O solo é do tipo latossolo com fertilidade média, bem drenado, com topografia levemente acidentada e excelente exposição ao sol.



O primeiro vinhedo comercial da Primeira Estrada foi implantado na Fazenda da Fé em 2004. Atualmente a

vinícola tem seis hectares de Syrah, a varietal que melhor se adaptou à região desde que aplicada a dupla poda para colheita no inverno. A primeira safra de vinhos da vinícola, ainda produzida pela Epamig, foi lançada em 2013.

Atualmente a Primeira Estrada conta com cantina própria em Caldas-MG, construída em parceria com a Maria Maria, também incubada na Epamig, e a Vitácea Brasil, de Murillo de Albuquerque, com capacidade para produzir 18 mil garrafas de vinho por ano. Além do vinho Syrah, de uvas cultivadas na Fazenda da Fé, em Três Corações, a Primeira Estrada produz Chardonnay com uvas de Caldas, colhidas no verão.


VINHOS MARIA MARIA



A Vinhos Maria Maria, cujo nome homenageia a música de Milton Nascimento, é outra vinícola que nasceu dentro da incubadora da Epamig, em Caldas - MG. Segundo seu proprietário, Eduardo Junqueira Nogueira Neto, o apoio da empresa de pesquisa foi de fundamental importância para a viabilização de sua vinícola.

Primeiro, pelo fato de o projeto ter sido desenvolvido pelo pesquisador Murillo de Albuquerque Regina, responsável pelo desenvolvimento da técnica de dupla poda para a produção de vinhos de inverno, manejo utilizado nos vinhedos da Vinhos Maria Maria, e também por ter feito as primeiras vinificações da vinícola, além do fato de ter emprestado sua enóloga, Isabela Peregrino, que ainda trabalha na Epamig.

Os vinhedos da Maria Maria começaram a ser implantados em 2009 em 5 ha e hoje já ocupam 20 ha plantados na Fazenda Capetinga, no município de Boa Esperança -MG. São cultivadas as varietais Syrah, Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e Chardonnay todas com dupla poda para vinhos de inverno. As uvas Syrah e Sauvignon Blanc, segundo Junqueira, apresentaram melhor desenvolvimento.

Situada nos limites meridionais da zona intertropical e, sob influência da elevada altitude da região, o clima é do tipo tropical mesotérmico. A temperatura média anual é de 19 °C. O inverno tem clima seco, dias quentes e noites frias, características que beneficiam o amadurecimento e a colheita das uvas.

Eduardo Junqueira diz que decidiu instalar a cantina da Vinhos Maria em Caldas pela parceria com a Primeira Estrada e a Vitácea Brasil, de Murillo de Albuquerque Regina, e por Caldas já ser um polo vitivinícola mais desenvolvido. Agora, além de vinificar as próprias uvas, a cantina, em Caldas, vai vinificar também para outros vitivinicultores.


LUIZ PORTO VINHOS FINOS

Quando Luiz Porto decidiu transformar sua paixão por vinhos em negócio, ele não tinha dúvidas que seria um sucesso. Em sua Fazenda do Porto, em Cordislândia no Sul de Minas, ele encontrara todas as características de um terroir para que suas mudas importadas da França expressassem ao máximo sua qualidade. Mas para que o sonho tornasse realidade, ele sabia que ia precisar ter uma conversa muito franca com alguém que seria decisivo para o triunfo da vinícola: a Mãe Terra.



Um dia no inverno, antes de as mudas chegarem da França, ele dispensou os funcionários da fazenda e, assim que o sol nasceu, pegou o cavalo e percorreu cada metro. O conteúdo da conversa ninguém ficou sabendo, mas que a vinícola Luiz Porto Vinhos Finos deu certo não resta dúvida.

Hoje, em pleno funcionamento, a vinícola dirigida por Júnior Porto, filho de Luiz, continua movida a paixão. Segundo Junior, a decisão de cultivar os vinhedos em Cordislândia se deu por conta da paixão de sua família pela terra herdada dos seus avós maternos.

Queriam fazer algo diferente das tradicionais plantações de café que existem na fazenda e que pudesse ser encantador e ao mesmo tempo lucrativo. “Foi por isso que decidimos nos instalar ao pé da Serra da Mantiqueira, em proximidade grande a essa cadeia montanhosa tão especial que, por coincidência, tem terroir propício à vitivinicultura”.

Júnior explica que o terroir da região é composto por três pilares principais: o clima, o solo e as pessoas. “Nossa região possui um grande talento para produções rurais de alta qualidade, são braços fortes e resistentes que compõem nossa equipe de trabalho. Com sede de aprender e entregar o que há de melhor. O clima é tropical de altitude (os vinhedos estão a 800 m acima do nível do mar), com estiagens concentradas no inverno.

Além disso, aqui se encontra um dos solos mais férteis do país, o latossolo vermelho, que tem em sua composição a argila, que permite uma elevada retenção de água, característica muito importante para que as videiras suportem a seca do inverno, período no qual produzem as uvas”.

Nessa terra fértil, os vinhedos começaram a ser cultivados em 2004, com a orientação da incubadora da Epamig, onde a vinícola Luiz Porto deu seus primeiros passos e teve seus primeiros vinhos produzidos. Hoje a vinícola conta com 10 ha de vinhedos com diversas varietais em diferentes estágios: “De mamando a caducando”, diz Júnior. As varietais Syrah e Sauvignon Blanc foram as que se desenvolveram melhor. “Além disso, hoje tem Cabernet Franc, Merlot, Chardonnay e Cabernet Sauvignon que, segundo Júnior, também permitem produzir excelentes vinhos. A dupla poda da Epamig foi adotada como uma espinha dorsal do projeto idealizado por Luiz Porto, invertendo a colheita para o inverno, junho/julho.

Os primeiros vinhos foram lançados em 2013. Em 2019 foram produzidas 45.000 garrafas, e para 2020 a expectativa é crescer 20%. “Atualmente estamos substituindo as vinhas e ampliando os vinhedos para suprir a crescente demanda do mercado”, afirma Júnior.


VINÍCOLA MICHELETTO

Em Louveira, a cerca de 70 km de SP, está a vinícola Micheletto, de uma tradicional família de descendentes de imigrantes italianos, produtores de uva de mesa desde 1914. Com o passar dos anos, a pressão imobiliária característica da região, a falta de mão de obra e a redução do valor agregado das uvas Niágara que produzem, entre outros fatores, começaram a inviabilizar economicamente a pequena propriedade.



Frente a esse cenário, em 2004 os proprietários iniciaram um Projeto voltado à implementação da atividade turística no meio rural e paralelamente a instalação de uma vinícola voltada à produção de vinhos de mesa com uvas Niágara, Isabel e Bordo. Em 2006, incentivados pelo pesquisador Murillo de Albuquerque, foram plantadas as primeiras varietais viníferas, já focando na dupla poda para a produção de vinhos finos de inverno.

Segundo o proprietário Daniel Fernando Miqueletto, (diferente da vinícola o sobrenome dele é com ‘que’ mesmo, devido aos velhos erros de cartório), o clima de Louveira é subtropical de altitude com inverno característico do interior paulista, ou seja, baixa precipitação e grande amplitude térmica entre o dia e a noite. “A composição do solo varia bastante, mas temos buscado implantar as variedades viníferas nas encostas de cascalho mais drenadas e com face norte. “

Apostando nesse terroir e com as orientações da Epamig, a Micheletto tem hoje aproximadamente 6 hectares de uvas, sendo 2,3 hectares de uvas viníferas (Syrah e Cabernet Franc). O restante da área é cultivado com uvas americanas e híbridas como: Niágara, Bordô, Isabel e Lorena.

Na Micheletto, o primeiro lote de vinho Syrah produzido na Epamig e lançado em 2008 era pequeníssimo. Hoje a vinícola tem sua cantina e loja em Louveira- SP e está expandindo os vinhedos. A safra de 2018 está esgotando na loja.

O vitivinicultor afirma que com expansão dos vinhedos e novas varietais, a partir de 2021 a Micheletto terá mais vinhos finos e outros produtos. “Temos ainda diversas variedades em teste e nossa meta agora é definir uma varietal italiana que se adapte ao terroir de inverno”.

Atualmente os vinhos finos são comercializados apenas na loja da vinícola. “Com o aumento da produção queremos colocar em alguns pontos de venda e restaurantes da região. Também teremos um wine bar abastecido pelos vinhos de inverno paulistas e mineiros”.


CASA VERRONE

A Casa Verrone nasceu de um sonho e da admiração por vinhos do proprietário Marcio Verrone, descendente de imigrantes italianos. Em 2000, após vários contatos, começou um curso em São Paulo e seu interesse pelo vinho se tornou uma paixão e a curiosidade o levou a viajar em busca de novos estudos e informações.

Em 2009, decidiu aproveitar suas terras nos municípios de Itobi e Divinolândia, nas proximidades de São José do Rio Pardo, SP, para implantar seus vinhedos visando a produção de vinhos finos de inverno. O clima tropical de altitude, com chuvas concentradas na primavera e verão e o inverno seco, com grande amplitude térmica e mais frio, parecia ideal para a frutificação das vinhas. O solo tem uma camada de argila que impede a evaporação da água nas áreas mais profundas e a existência de granito em grande quantidade faz com que as raízes das plantas absorvam minerais formando o estilo do vinho.

Neste terroir, Marcio Verrone começou a plantar as primeiras varietais Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Sauvignon Blanc. As videiras foram distribuídas em uma área de 1,5 ha e surpreenderam pelo excelente desenvolvimento. Logo validou-se o processo, pois a produção as videiras testadas superaram as expectativas. Após os resultados favoráveis, as áreas dos vinhedos foram ampliadas e hoje somam um total de 12 hectares.

Atualmente as uvas cultivadas pela Verrone são Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Sauvignon Blanc, Viognier e Pinot Noir. “As varietais Syrah e Sauvignon Blanc foram as que mais se adaptaram a região, as Cabernet estão nos surpreendendo mais tardiamente”, afirma Marcio.

“A meu ver conseguimos atingir um nível de qualidade alto, parecido com o dos europeus. Os vinhos são estruturados, complexos e harmônicos e isso mostra a capacidade de São Paulo em produzir vinhos de qualidade”.

Em 2019 foram produzidas em torno de 45 mil garrafas de vinho. Em 2021 serão lançados novos produtos como Syrah Gran Speciale, 18 meses de barrica francesas de primeiro uso e 1 ano de garrafa. Também Verrone estuda plantar novas varietais de uvas.



MARCHESE DI IVREA

Quem conhece a região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sabe que por lá a temperatura navega nos extremos, podendo sair de 4°C à noite para um calor de mais de 30°C durante o dia.

O advogado e atual deputado federal na Câmara Italiana, Luís Roberto di San Martino-Lorenzato, viu nessa grande amplitude térmica o clima ideal para cultivar uvas viníferas voltadas à produção de vinhos finos. Atento à essa grande amplitude térmica, Luís Roberto decidiu que a fazenda teria uma vinícola.

Ainda em 2006, começou a implantar os vinhedos no município de Ituverava, cidade de 38 mil habitantes. O projeto quebrou paradigmas, já que a região é conhecida pelas altas temperaturas, grandes canaviais e produção de açúcar e etanol, condições aparentemente nada favoráveis à vitivinicultura. Mas a ideia deu certo e hoje a Marchese Di Ivrea está em plena expansão e produz 50 mil garrafas de vinho por ano.

“Aqui não chove entre julho e agosto, época em que a uva com dupla poda está no ápice do açúcar. Por que no Sul tem muito espumante? Porque lá, no verão quando ocorre a vindima, as uvas não amadurecem completamente. Aqui em Ituverava também, em dezembro e janeiro, minha safra é igual à do Sul, pois chove muito, o que faz com que as uvas não amadureçam totalmente. Então, com as uvas de verão opto por fazer vinhos rosé ou espumantes, sendo fiel ao clima, já que o que determina a qualidade do vinho é o teor de açúcar”, afirma o vitivinicultor”. Ao contrário da quase totalidade das vinícolas do Sudeste, que usam a dupla poda para colher as uvas apenas no inverno, a Marchese di Ivrea faz duas colheitas: no verão e no inverno.



VINÍCOLA TERRASSOS

A Vinícola Terrassos, debruçada à frente de uma belíssima vista da Serra da Mantiqueira, no município de Amparo, cidade que faz parte do Circuito das Águas Paulista, surgiu do sonho do engenheiro de software, Fábio Luiz Nascimento, em produzir vinhos finos em terras paulistas.

Ele conta que ideia de se tornar produtor de vinhos nasceu na Tailândia, em 2002. “Estava trabalhando lá há sete meses, quando uma dia acordei com a ideia de produzir vinhos em Amparo onde meus pais moravam. Eu não bebia vinho, não sabia nada sobre o assunto, mas fiquei com aquela ideia na cabeça. Fui procurar literatura sobre o assunto e encontrei um livro da década de 60 que falava da importância do terroir para as qualidades do vinho”.

A partir daí o engenheiro de software passou a pesquisar e estudar sobre a produção de vinhos. Formou-se engenheiro de produção em um curso de “Cellar Master”, em Israel e cursou os níveis 2 e 3 da Wset. Não se formou enólogo, mas participa das decisões e provas junto com o enólogo.

Em 2003, contrariando o conhecimento existente à época e com a ambição de fazer grandes vinhos, iniciou a plantação dos vinhedos, que hoje somam 3 ha. “Após anos de aprendizado, testes com uvas viníferas e muita dedicação, concluímos construção da cantina e iniciamos a elaboração dos primeiros vinhos lançados em 2010”.

Fábio Luiz conta que decidiu produzir vinhos com identidade local/regional em Amparo porque, além de seus pais morarem lá, e ele sabia que havia uma história de produção de uvas na região, mas que havia desaparecido. “Na década de 1940, por exemplo, Amparo teve sua festa da uva onde mais de 200 variedades diferentes produzidas na cidade foram apresentadas”.

A diferença de hoje é que, em vez das viníferas que Fabio Luiz cultiva na região, as uvas apresentadas na festa de 1940 provavelmente eram quase todas de mesa, facilmente adaptadas à região.

O terroir da região apresenta clima sub tropical de altitude, com verões quentes e chuvosos e invernos amenos e secos. O solo tem bastante granito e quartzo, que permitem excelente drenagem nas regiões de encostas. Essas características estão atraindo novos empreendedores do vinho. Segundo Fábio Luiz, além da Terrassos, mais quatro vinícolas estão se instalando em Amparo.

Depois de muitos testes com mais de 20 tipos de videiras, Fábio Luiz conseguiu viabilizar a produção das varietais Syrah, Máximo, Moscatel, Rainha e Sauvignon Blanc. “Já testamos, no passado, Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Tannat, Malbec, Chardonnay, entre outras, e não conseguimos um resultado satisfatório”.

A Terrassos também faz duas colheitas ao ano: no verão e no inverno. Segundo, Fábio Luiz, as uvas de verão apresentam acidez mais elevada, são frutadas e menos maduras. É possível obter um vinho com mais frescor, mais leves e com menos álcool.

Além disso, a produtividade é maior no verão, permitindo um vinho mais competitivo em termos de qualidade/ preço para o mercado. Já os vinhos de inverno são excepcionais, mas têm se mostrado muito alcoólicos, devido a condição climática a uva demora para maturar no inverno e acaba concentrado muito açúcar.

Do ponto de vista de produção, os vinhos da Vinícola Terrassos têm algumas características semelhantes às dos vinhos naturais, embora não possam ser chamados assim porque não são orgânicos. Fábio Luiz explica que procura fazer o vinho com a mínima intervenção para expressar ao máximo o terroir da região. Ele praticamente não filtra os vinhos. Também adiciona doses mínimas de sulfito e nada mais. A depuração dos resíduos é feita por decantação. Depois da fermentação no tanque grande com temperatura controlada o vinho vai passando por tanques menores com respiro nos quais ocorre a decantação final”.


VINÍCOLA GÓES



A Góes é uma das mais tradicionais produtoras de vinhos de mesa de São Roque, SP, e também está investindo na produção de vinhos finos de inverno com dupla poda desde 1999. Hoje tem 28 hectares de uvas viníferas, produzindo e sendo ampliados ano após ano.

A Vinícola Góes foi inaugurada em 1963 por Gumercindo de Góes, filho de Benedito Moraes de Góes, descendente de imigrante portugueses, que juntamente com seu irmão Firmino de Góes, foi pioneiro no cultivo de uvas em São Roque para a produção de vinhos caseiros no início do século 20 e a partir de 1920, com a chegada das uvas americanas, Isabel e Niágara, passaram à produção comercial de vinhos de mesa.

O novo empreendimento vitivinícola idealizado por Gumercindo de Góes e seus filhos tem uma trajetóriade sucesso com os vinhos de mesa e já começa a ser das maiores produtoras de vinhos finos de inverno do Sudeste. Logo que iniciou suas atividades na década de 1960 abasteceu a recém- -inaugurada de Brasília com um lote completo de seus vinhos de mesa.

Aproveitou os ventos favoráveis à vitivinicultura dos anos 1960 e 1970 quando o mercado era impulsionado pelas Festas do Vinho que divulgavam e premiavam os produtores, inclusive Gumercindo de Góes. Nos anos 1980, apesar dos tempos difíceis, Gumercindo Góes e seus filhos investiram na modernização da vinícola adquirindo, inclusive, novas máquinas para a produção.

Em 1999, iniciou o cultivo de uvas viníferas Cabernet Franc, a que melhor se adaptou ao terroir. Depois vieram Cabernet Sauvignon, Malbec e Sauvignon Blanc e, nos próximos anos serão concluídos os testes com Viognier, Tannat e Petit Verdot. Todas as varietais passam pela dupla poda visando a produção de vinhos de inverno.



De acordo com o enólogo, Fábio Góes, a dupla poda com colheita de inverno tem se mostrado a melhor técnica de cultivo com base nos resultados concretos de qualidade do fruto e dos vinhos finos que a Vinícola Goes produz. Segundo ele, os ganhos com esse tipo de manejo estão na qualidade no fruto, com maturação fenólica completa, e na redução de riscos de perda na safra, que são maiores no verão por causa do excesso de chuva.

Segundo Luciano Lopreto, diretor comercial, a Vinícola Góes comercializou 6 milhões de garrafas de vinho em 2019 (a maior parte de vinhos de mesa), produzidos tanto em São Roque quanto em Flores da Cunha, RS, onde tem outra unidade produtiva. “Somente de vinhos finos em São Roque, produzimos 400 mil garrafas em 2019. Projetamos para 2020 um crescimento de 9% no volume global, sendo 20% em vinhos finos”.

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