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Os vinhos do deserto

O Atacama, no norte do Chile, é uma das áreas mais secas do mundo. E apesar de sua aridez, a região produz vinhos de alta qualidade

POR JÚLIO ANSELMO DE SOUZA NETO


Recentemente, fui a San Pedro de Atacama, região de Antofagasta, no Chile, para conhecer a parte mais visitada do fantástico deserto de Atacama que, na verdade, ocupa área de 100 mil km2 entre as cidades de Arica e La Serena, estendendo-se no sentido norte-sul pelas províncias de Arica, Parinacota, Tarapacá, Antofagasta, Atacama e Coquimbo. Esta maravilha da natureza é mesmo de tirar o fôlego, tanto pelas paisagens deslumbrantes, como pelas grandes altitudes das áreas visitadas, mas apresenta condições climáticas extremas: é a região mais seca do mundo, com índices pluviométricos de apenas 0 a 20 mm ao ano, umidade relativa do ar de 17% e temperaturas que podem ir dos 25 graus negativos, à noite, até os 50 graus à sombra, durante o dia! Como se não bastasse, há relatos de que, em algumas de suas áreas, não chove há incríveis 400 anos!

Diante desses dados, somos levados a pensar que a produção de uvas e a elaboração de vinhos seriam impossíveis no deserto de Atacama, mas eis que nos deparamos com mais um dos (muitos) fatos inusitados do mundo do vinho: lá plantam-se uvas e produzem-se vinhos!

A seguir, um pequeno histórico e um breve relato sobre a situação atual desta inimaginável região vitivinícola.



Durante muito tempo, a província de Atacama produziu vinhos simples, utilizados na produção de Pisco, o destilado nacional cuja “paternidade” é disputada entre Chile e Peru, e o mais antigo vinho americano, o Pajarete. No século XVII, os jesuítas espanhóis trouxeram para o Valle del Huasco, sub-região de Atacama, o modo de fabricação do vinho homônimo que era produzido da cidade de Málaga,na região de Andalucia no sul da Espanha. Desse modo, o Pajarete se tornou o vinho emblemático da província de Atacama, produzido tradicionalmente na comuna de Alto del Carmen. Desde 1953, possui a denominação de origem que, segundo alguns, é a mais antiga das Américas. O Valle del Coquimbo, na vizinha província de Coquimbo, mais ao sul, também produz uma pequena quantidade de Pajarete. Legalmente, é caracterizado como um vinho doce, com 14 a 18% de álcool natural (sem adição de aguardente) e produzido em três versões: o branco, mais comum, elaborado com as uvas Moscatel de Alexandria e Albillo; o rosé, feito com a uva Moscatel Rosada; e o tinto, proveniente da uva País, também chamada Criolla ou Misíon.

A partir do Pajarete e dos vinhos inferiores destinados à produção de Pisco, a vitivinicultura se expandiu pelo deserto de Atacama que hoje possui as cinco vinícolas descritas a seguir.

A Viña Tara é a melhor de todas as vinícolas do deserto de Atacama e a única delas que tem importador no Brasil (Cantu). Ela pertence à Viña Ventisquero que, no início dos anos 2007, plantou vinhedos (hoje são 10 hectares), situados a apenas 22 km da costa do Pacífico, no Valle del Huasco, próximo à cidade litorânea de Huasco e, em 2010, iniciou-se aprodução do vinho Tara. O nome é uma homenagem ao Salar de Tara, uma das mais famosas e deslumbrantes atrações turísticas do deserto, constituído por salinas, lagos e imponentes formações rochosas. O curioso é que o Salar de Tara fica a uma grande distância do Valle de Huasco: cerca de 900 km!

No Valle de Huasco, o solo é rico em calcário e tem alto teor de sal e o índice pluviométrico anual é de apenas 20 mm. Apesar destas condições extremas, os vinhedos recebem a influência benéfica do Oceano Pacífico, através da ação refrescante da Camanchaca, nevoeiro que se forma pela manhã, atenuando a insolação. Além disso, ao contrário do Valle Central (principal região vinícola chilena), a ausência da Cordilheira da Costa permite a entrada dos ventos oceânicos durante o período da tarde, transformando o clima desértico em quase mediterrâneo. A alta concentração de sal no solo e na água exige um sistema de irrigação, mas também possibilita a utilização de anidrido sulfuroso (substância de ação antisséptica e antioxidante) em teores equivalentes a um terço da quantidademínima usual.

O vinho é produzido em três versões: o Tara White 1 (96% Chardonnay e 4%Viognier), o Tara Red 1 (100% Pinot Noir) e o Tara Red 2 (70% Syrah e 30% Merlot). Nenhum deles passa por filtração e os tintos amadurecem em madeira de quinto uso. Todos muito bons.

Apesar da Armidita não ter importador no Brasil, é conhecida de muitos enófilos brasileiros, pois ela faz parte do MOVI (Movimiento de Viñateros Independientes de Chile) que já apresentou os vinhos de seus associados em diversas capitais do país. Fundado em 2009, o MOVI é constituído por 32 pequenos produtores “descolados” que afirmam fazer vinhos “singulares” e que expressem suas filosofias de vida.

A Armidita produz um bom vinho Pajarete nas versões branco, rosé e tinto e, também, dois tipos de Pisco.

A Bodega Ayllu é fruto do programa comunitário ATF (Atacama Tierra Fértil) iniciado, em 2008, pela empresa SQM (Sociedad Química y Minera de Chile) e que tem a participação de vinte pequenos agricultores nos povoados de Toconao e Socaire, pertencentes ao município de San Pedro de Atacama. O nome Ayllu é bem apropriado, pois na língua kunza (etnia indígena local) significa “comunidade”.



Os agricultores possuem videiras cinco hectares de videiras das castas Chardonnay, Moscatel, Malbec, Petit Verdot, Pinot Noir e Syrah. Plantadas em altitudes entre 2.500 (Toconao) e 3.500 metros (Socaire), as videiras são irrigadas por sistema de gotejamento de água captada da Cordilheira dos Andes e a energia usada na captação da água e na irrigação é gerada por energia solar. A Ayllu tem a assessoria dos enólogos Álvaro Peña e Pedro Parra, este último conhecido como “doutor terroir”, por ser estudioso do tema.

Curiosamente, em San Pedro de Atacama, foi difícil encontrar os vinhos Ayllu e, infelizmente, os três provados (um Moscatel, um Malbec e um corte de Malbec e Syrah) ficaram a desejar.

Criada em 2008, a associação congrega cerca de 20 produtores de Pajarete no Valle del Huasco e surgiu dentro de um projeto do governo chileno e da Universidade do Chile para recuperar a tradição das famílias produtoras do Pajarete. O projeto visa melhorar as técnicas enológicas, efetuar uma produção sustentável e cumprir os requisitos legais sem perder o caráter artesanal. A associação produz dois vinhos: o Vendimia del Desierto, branco, e o Glaciares del Alto, nas versões branco e rosé. Infelizmente, não os provei e nem tive referências de qualidade.

Finalizando, caro leitor, recomendo-lhe, enfaticamente, a indescritível experiência de conhecer o Atacama!

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