• Vinho Magazine

O vinho nos tempos do vírus

O mercado cresceu e as vendas por Internet se multiplicaram


POR MARIA EDICY MOREIRA


Vinhedos em espaldeira da Góes, em São Roque, SP

A terrível pandemia do coronavírus trouxe experiências dolorosas. Mas a quarentena a que grande parte da população aderiu, acabou por levar as pessoas a valorizar as refeições caseiras e a apreciar um bom vinho para acompanhar os pratos.

À direita, Luciana Salton, diretoraexecutiva da Vinícola Salton. Na página ao lado, prateleira de tintos na Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves, RS

E, na impossibilidade de sair de casa, o e-commerce deu uma mão na hora da compra do vinho, ganhando força. Além disso, a crise econômica, em grande parte também provocada pela pandemia, elevou a cotação do dólar, elevando a competitividade dos produtores locais de vinhos.

Cotados em reais, os vinhos nacionais ficaram comparativamente mais atraentes frente aos importados.

Esses movimentos fizeram com que o volume de vinhos consumido pelos brasileiros aumentasse significativamente, passando de menos de 2 litros per capita em 2019 para 2,8 litros por pessoa em 2020.

A Vinícola Salton, por exemplo, registrou, em 2020, um crescimento de 26% na comercialização dos vinhos tranquilos. No segmento de espumantes, considerados seu carro-chefe, a vinícola comercializou 9,7 milhões de garrafas no ano passado, superando as 8 milhões comercializadas em 2019. “Garantimos, mais uma vez a liderança na categoria, com mais de 40% do mercado”, afirma a diretora-executiva Luciana Salton.

Segundo ela, apesar de a vinícola ter vivido um ano atípico em 2020, houve boas surpresas. “No início do ano verificamos, em um primeiro momento, um acréscimo no consumo de vinhos tranquilos e ligeira queda no segmento de espumantes, comparando com anos anteriores, mas o segundo semestre já começou com retomada, na contramão da queda no mercado de espumantes”.

Luciana explica como foram os movimentos sazonais de consumo vivenciados pela Salton em 2020: “com as temperaturas mais baixas, houve uma ligeira queda na procura por espumantes brut e vinhos brancos, enquanto os vinhos tintos foram bastante procurados pelos consumidores, que passaram a consumi-los mais em casa”.

Com relação ao perfil dos consumidores, ela observa que uma parte deles está mais aberta a novas experiências, permitindo-se explorar novos rótulos, principalmente no momento de restrições às experiências turísticas e enogastronômicas. Além disso, o consumidor, agora está mais consciente em suas compras, pesquisa mais...

Ao lado desse novo perfil do consumidor, Luciana chama a atenção para o cenário cambial com o dólar em alta, que colocou em evidência a vantagem de optar por vinhos nacionais. “Muitos consumidores que só compravam vinhos importados, se surpreenderam com o padrão de qualidade de nossos rótulos e se tornaram clientes assíduos”.


VINÍCOLA AURORA


Direção da Aurora: Tiago Fronza Frare, Renê Tonello e Celito César Bortoli

A Vinícola Aurora faturou em 2020 R$ 701 milhões, valor que representa um crescimento de 26% em relação ao ano de 2019. Pelo segundo ano consecutivo, alcançou o melhor desempenho da história. A vinícola vendeu 4,2 milhões de caixas, entre vinhos finos e de mesa, com destaque para o crescimento de 100% na comercialização de vinhos finos diante de 2019.

As vendas de vinhos finos somaram 9,7 milhões de litros, e de acordo com o diretor superintendente da Vinícola Aurora, Hermínio Ficagna, esse volume representa 40% do total de vinhos finos brasileiros comercializados em 2020 (24,2 milhões de litros). Foram vendidas, ainda, 823 mil caixas de espumantes.

As vendas para o mercado externo também mereceram destaque em 2020. Foram exportados 868,2 mil litros dos produtos da Aurora, somando vinhos, espumantes, sucos de uva e coolers, o que significa uma alta de 47,6% em relação ao ano anterior. As bebidas foram vendidas para 18 países, como China, o principal destino, seguida por Holanda, Paraguai, Haiti, Estados Unidos e Japão, entre outros.


Luciano Lopreto, diretor da Góes

VINÍCOLA GÓES

Graças à acessibilidade ofertada pelo e-commerce, que ganhou força na pandemia, a Vinícola Góes registrou um crescimento de mais de 400% nas vendas on-line. O diretor comercial, Luciano Lopreto, observa que a base de comparação para as vendas pela Internet antes da pandemia era muito baixa, mas esse crescimento foi realmente significativo. Os preços mais competitivos frente aos importados, por causa da alta do dólar, também contribuíram para aumentar as vendas como um todo. No total, a comercialização de vinhos pelo e-commerce e nas lojas físicas cresceu 30% de maio a dezembro de 2020.

“A alta do dólar e a queda da Substituição Tributária (ST) em alguns estados, fez com que nossos vinhos se tornassem muito atrativos e isso mostrou ao consumidor experiente que não deixamos nada a desejar frente aos importados. Temos muitos vinhos premiados internacionalmente. Os iniciantes, por sua vez, viram no vinho uma nova categoria muito mais acessível e descomplicada, passando a consumir mais a bebida. Por isso, hoje é comum ver consumidores de outras bebidas migrando para o mundo do vinho”, afirma Lopreto.

As restrições ao consumo fora de casa também contribuíram para aumentar as vendas pela rede. “Com bares e restaurantes fechados, encontramos na venda direta ao consumidor uma forma de enfrentar o momento, o que deu excelente resultado”.

Segundo o diretor comercial, a quarentena levou as pessoas a visitarem lojas virtuais das vinícolas, comprando direto da fonte ou nos supermercados: “a Vinícola Góes conseguiu ampliar também sua distribuição nas lojas físicas e aumentou suas vendas neste canal”.

Lopreto credita parte do aumento nas vendas aos excelentes produtos que vêm sendo feitos em território nacional, graças aos investimentos feitos pelas vinícolas –do vinhedo à comercialização– fazendo com que o consumidor se interesse mais pelo vinho nacional.



GEISSE

A Vinícola Geisse tem seus vinhedos cultivados em uma área em Pinto Bandeira/RS, e segundo seu diretor de marketing, Daniel Geisse, há anos convive com uma demanda reprimida, que supera em muito sua produção, em relação às reservas feitas pelos principais clientes e à reserva própria para atender às vendas pela Internet.

Assim, apesar do aumento da demanda em 2020, a vinícola não teve como aumentar suas vendas. O que ocorreu nesse período foi uma inversão nos canais de venda. “Com a venda e o consumo presenciais reprimidos, houve aumento bastante significativo nas vendas pelo e-commerce se comparado ao movimento das lojas físicas”.

Daniel Geisse observa que o fato de as pessoas ficarem mais tempo em casa fez com que elas se abrissem mais para o mundo do vinho, a bebida mais indicada para momentos de prazer em família, harmonizando com refeições às quais as pessoas puderam dedicar mais tempo no preparo e apreciação.


PORTO A PORTO

Para quem trabalha com vinhos importados como a Porto a Porto, foi preciso usar a criatividade para superar as restrições ao comércio em lojas físicas impostas pela pandemia e os desafios gerados pelo dólar em alta. “Tivemos que ser mais pró-ativos, ajudando os nossos clientes (revendedores) a encontrar outras alternativas para a sobrevivência de seus negócios”, afirma Pedro Corrêa de Oliveira, sócio da Porto a Porto.

Ele conta que no momento de fechamento do canal on trade (bares, restaurantes, casas noturnas, cafés, clubes e hotéis) o delivery foi o modelo que permitiu a sobrevivência dos restaurantes e, ao incluir o vinho em seus combos promocionais, esses estabelecimentos ajudaram os fornecedores da bebida a manter parte de suas vendas.

Por outro lado, o grande varejo iniciou fortes campanhas com vinhos baratos, o que aumentou as vendas dessa categoria, principalmente entre os importados. O fechamento dos restaurantes prejudicou as vendas de vinhos de maior valor agregado. As lojas especializadas também deram seus pulos para não fechar as portas. Passaram a atuar como verdadeiros consultores para atrair consumidores.

Ao contrário dos produtores locais de vinhos, que devido à alta do dólar comemoraram o ganho da concorrência frente aos vinhos importados e não precisaram baixar seus preços, as importadoras tiveram que investir em promoções e divulgação de seus produtos, além de apostar nos produtos mais baratos para não perder os clientes.

“A partir do segundo trimestre de 2020 fizemos muitas promoções. As margens despencaram com a variação cambial e a concorrência da importação direta do varejo e dos produtos nacionais. Enfim, matamos um leão por dia”, afirma Oliveira.