• Vinho Magazine

Questão de gosto

O paladar evolui, adquire novos padrões e dificilmente regride


Por: Irineu Guarnier Filho

Gosto não faz marcha a ré. Uma vez que experimentemos um alimento ou bebida de qualidade superior, nosso paladar não volta atrás. Estabelece-se um patamar que só pode ser superado por algo ainda melhor. O gosto evolui. Até pode sofrer uma ou outra recaída –mas jamais regride em definitivo.

Gosto se educa. Quem uma vez experimentouBrie, Camembert ou Roquefort, dificilmente volta ao queijo-commodity –tipo “lanche”. O mesmo ocorre com os azeites extra-virgens em relação aos óleos comuns. Com o aceto balsâmico em relação ao vinagre-de-qualquer- -coisa. Ou com o café. Com o vinho não é diferente. Muitos de nós começamos bebendo vinhos feitos com uvas americanas ou híbridas. Vinhos de garrafão. Mas, depois que provamos um Cabernet Sauvignon, Merlot ou um Chardonnay, quem diz que voltamos para os caldos de Isabel ou Niágara sem torcer o nariz?


Ilustro a minha “tese” com um exemplo caseiro. Cresci vendo meu pai bebericar um copo de vinho às refeições. Vinho comum, “de mesa”. Quando comecei a conhecer um pouco mais sobre o assunto, sugeria ao velho que experimentasse um Cabernet Sauvignon ou um Merlot. Ele provava, fazia uma careta e colocava a taça de lado: não, obrigado. Mas, por que não? Eram vinhos muito “alcóolicos” e “amargos”, desculpava-se.

O tempo passou, mas não desisti daminha “catequese”. Sempre que o visitava, levava-lhe uma garrafa de um vinho fino diferente. Aos poucos, ele foi cedendo. Primeiro, abriu a guarda para alguns Merlot mais ralinhos. Depois, deixou-se seduzir pelos sedosos Malbec. Um dia, admitiu que não gostava mais de vinho comum. Quando eu lhe perguntava, por brincadeira, se não gostaria de provar um vinho colonial com “gostinho de uva”, ele polidamente recusava. Até o final de seus dias, já se havia convertido em um bebedor razoavelmente refinado.

Não quero dizer com isso que o vinho comum, que representa 80% do consumo da bebida no Brasil e sustenta milhares de agricultores familiares, não tem importância cultural, social ou econômica. Tem muita, nos três aspectos. E precisa ser respeitado. Afinal, cada um bebe aquilo que gosta –e o que seu bolso permite. Alguns vinhos comuns até são tecnicamente mais bem feitos do que muito vinho fino metido à besta...

Mas vinho aos padrões globais, universalmente reconhecido como tal, é aquele elaborado com uvas Vitis viníferas, e não o fermentado de uvas americanas. Se o país quiser construir uma reputação internacional como produtor de vinho, não há outro jeito: há que aumentar a área de vinhedos de viníferas europeias. E, com as uvas americanas, seguir fazendo o melhor suco do mundo.

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