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Safra 2021

A vindima deste ano traz alta produtividade e bom nível médio de qualidade, mesmo sem o esplendor da colheita 2020


Por: Maria Edicy Moreira



Recepção de brancas na Famiglia Valduga: espetaculares para espumantes

No Rio Grande do Sul, a maior região produtora de vinhos finos do país, a safra 2021 já revelou boa parte de suas características por meio da vindima realizada entre dezembro de 2020 e março de 2021. Há consenso de que há comparação com a grandiosidade da safra 2020, que foi espetacular e histórica, mas também não se pode dizer que foi ruim.

De acordo com os produtores, os vinhos elaborados a partir das uvas colhidas nesta safra, com algumas exceções, não terão o mesmo padrão de qualidade da safra 2020. Isso, entretanto, não significa que não serão bons. “Apesar de períodos excessivos de chuvas no meio da safra, a qualidade das uvas não foi afetada”, afirma Alexandre Parizi, enólogo da casa Peterlongo.

O que mais chama a atenção nesta safra é a alta produtividade dos vinhedos. A quantidade de uvas colhidas ficou acima dos números contabilizados na safra 2020, apesar de algumas perdas por excesso de chuva.

Em vitivinicultura, muitas vezes menos é mais, ou seja, o ganho de produtividade das videiras não significa necessariamente ganho de qualidade para uvas e vinhos.

Produtor cooperado da Vinícola Aurora exibe uvas tintas recém-colhidas

Talvez, por isso e pelas interferências do clima, a safra deste ano não tenha sido tão espetacular quanto à anterior.

A Peterlongo colheu aproximadamente 2,5 toneladas de uvas, o que representa um aumento na produção da fruta de 85% em relação a 2020.

Parizi observa que o clima, de maneira geral, ajudou. “Desde a floração da videira tivemos clima favorável no Rio Grande do Sul. Entretanto, no meio da safra houve quase duas semanas de muita chuva e isso nos preocupou e dificultou um pouco a produção, mas o resultado final foi positivo”.

A cantina da Peterlongo, na sede da empresa em Garibaldi, RS, recebeu uvas de três regiões: Serra Gaúcha, Campanha Gaúcha e Serra de Sudeste e, segundo Parizi, destas três origens, a que produziu as uvas com melhor nível de maturação foi a Serra do Sudeste, município de Encruzilhada do Sul.

“A uva que me deixou mais satisfeito com a sanidade e maturação foi a Merlot, mas variedades como Teroldego e Chardonnay que também me deixaram bastante satisfeito pela qualidade que recebi e o resultado que estamos tendo durante a safra”.

Com relação aos vinhos finos tintos, o enólogo diz que vêm apresentando boa estrutura e capacidade de envelhecimento, mas mantendo as características da varietal bastante marcadas. “Para os vinhos finos brancos e espumantes, estou mantendo o máximo de qualidade olfativa, combinando sempre com a estrutura que cabe a cada varietal”.


Lado esquerdo Enóloga Gabriela Pötter: Guatambu, no meio Daniel Panizzi, da Don Giovanni e a direita Alexandre Parizi, da Peterlongo

Produção crescente

A Cooperativa Vinícola Aurora colheu mais de 70 milhões de quilos de uva, o que representa crescimento de 15% a 20% em relação à safra 2020. A maior parte da matéria-prima foi recebida em plena semana de comemoração pelos 90 anos da vinícola, entre os dias 8 e 16 de fevereiro, mas por causa da pandemia não houve festa.

Os mais de 1,1 mil associados da Cooperativa Vinícola Aurora cultivam mais de 60 variedades de uvas viníferas, americanas e híbridas, em um território de 2,8 mil hectares que abrange os municípios de Bento Gonçalves, Cotiporã, Farroupilha, Garibaldi, Guaporé, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira, Santa Tereza, São Valentim do Sul, Veranópolis e Vila Flores.

Todas as propriedades ficam em um raio de até 50 quilômetros da vinícola, o que garante frescor à fruta e evita a fermentação indesejada. Durante a vindima, as três unidades da empresa chegaram a receber 2,5 milhões a 3 mi de quilos de uvas por dia. De acordo com o diretor superintendente, Hermínio Ficagna, a safra 2021 deve render mais de 60 milhões de litros de bebidas, entre vinhos, espumantes, sucos e coolers.


Esteira de seleção na Guatambu

Precoces espetaculares

A safra 2021 pode não ser toda espetacular e histórica quanto a 2020, mas na vinícola Don Giovanni alguns detalhes dessa perfeição, segundo seu diretor Daniel Panizzi, se repetem. “Teremos uma safra espetacular para as uvas Chardonnay e Pinot Noir, colhidas precocemente para a produção de espumantes. Os frutos apresentaram uma qualidade fantástica, igual à da safra 2020”.

Panizzi conta que houve dois períodos de chuvas intensas – em setembro (época da floração) e a partir da segunda quinzena de janeiro (na fase de maturação) – e isso trouxe perdas na produção, mas não interferiu na qualidade dos frutos. Apesar dessas quedas, a quantidade de uvas colhidas neste ano superou em 25% a da safra 2020. A produção de vinhos neste ano deverá aumentar 20%. Serão produzidos Chardonnay (vinho e base), Pinot Noir (rosé e base) e varietais Merlot, Ancellota, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon.

As expectativas em relação à qualidade dos vinhos da safra 2021 são otimistas. “Para os espumantes já temos a certeza, e para os vinhos tranquilos a tendência é que esta safra também seja muito boa”, afirma Panizzi. A Don Giovanni cultiva seus vinhedos em Pinto Bandeira,RS, como vinhas de altitude.


Verões mais secos

Com sua sede no coração do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, RS, a Famiglia Valduga tem se surpreendido positivamente com a safra 2021. Para o diretor técnico e enólogo Daniel Dalla Valle, a quantidade de uvas colhidas superou entre 5% e 10% a colheita de 2020 e foi possível perceber a qualidade excepcional das uvas obtidas durante a vindima deste ano.

“O clima se comportou de forma adequada e nossa colheita, principalmente para vinhos-base de espumante, surpreendeu. Conseguimos uma maturação aromática perfeita, preservando as características da fruta e uma acidez marcante, que é essencial para a elaboração pelo método champenoise”, afirma o enólogo. Segundo ele, a expectativa a Valduga é lançar rótulos inovadores e de alta qualidade, para que os vinhos brasileiros se tornem cada vez mais os preferidos dos próprios brasileiros.


Colheita na vinícola Don Giovanni, em Pinto Bandeira: vinhos de altitude
Colheita na Campanha: Guatambu

Frio na campanha

Instalada em Dom Pedrito, RS, em plena região da Campanha Gaúcha, a vinícola Guatambu também não tem do que reclamar em termos de qualidade das uvas. Só que, ao contrário das vinícolas do Vale dos Vinhedos, teve certa perda de produtividade nos vinhedos.

Segundo a sócia e enóloga, Gabriela Pötter, uma geada na primavera prejudicou a brotação das vinhas e consequentemente diminuiu a produtividade em quadros de Tannat e Cabernet Sauvignon. Além disso, a deriva do herbicida 2,4 D da soja, aplicado em propriedades vizinhas, contribuiu para reduzir ainda mais a produtividade dos vinhedos. Assim, na safra 2021, os vinhedos da Guatambu diminuíram a produtividade em 14% em relação à 2020.

Houve algumas chuvas no início de

fevereiro que prejudicaram a maturação de algumas variedades como a Tempranillo. Apesar disso, Gabriela diz que terá grandes vinhos em 2021. “O clima deste verão na região da Campanha, assim como da safra 2020, foi mais seco do que a média dos anos, que já é caracterizada por alguma estiagem. Isso resultou em bagas pequenas e muito concentradas, gerando vinhos equilibrados (entre álcool, acidez, pH e polifenóis) e com grande intensidade de aromas e sabores. Será uma safra memorável”.

A enóloga afirma que a safra 2021 gerou vinhos-base para espumante superiores e a maioria dos tintos terá características nobres com graduação alcóolica produzida naturalmente acima de 14,1%. Outro vinho que deverá se destacar é o Sauvignon Blanc, por seus aromas incríveis de ervas mesclados com notas de maracujá e cítricas.

As uvas brancas como Chardonnay, tanto para vinho quanto para a base dos espumantes, apresentaram qualidades espetaculares. As tintas, Pinot Noir, Merlot e Tannat, também tiveram maturação excelente e estão com álcool provável acima de 14,5%.

Ao todo a vinícola processou 158 toneladas das varietais Chardonnay, Sauvignon Blanc, Gewürztraminer, Tempranillo, Merlot, Tannat, Cabernet Sauvignon e Pinot Noir, sendo 90 toneladas de colheita própria e 68 toneladas adquiridas de terceiros.

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