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Spirits inspiradores

Na obra de Ernest Hemingway, os drinques e coquetéis ocupam papel de destaque


Por: Zoraida Lobato


Ernest Hemingway, um dos mais importantes escritores do século 20

Se você leu qualquer livro do célebre escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) vai concordar comigo, que para além de boas histórias, romances e aventuras, saímos de suas paginas com um maior conhecimento sobre diversas bebidas.

Com quase toda certeza o autor de “O Velhos e o Mar”, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954, escrevia com um copo na mão. Hemingway, que mudou o estilo de novelas, contos e romances com seu estilo conciso e limpo e também ganhou o Prêmio Pulitzer, não escondia de ninguém que gostava de um drinque, não importando o momento e o lugar.

Acabei de reler o romance “O Sol Também se Levanta” (The Sun Also Rises, de 1926). Nele, o personagem Jake Barnes bebe um Jack Rose enquanto espera em vão por Brett Ashley para conhecê-lo. Hemingway descreve a cena e o drinque com exatidão, quase passa a receita, como um barman faria.

Ainda nesse mesmo livro vão aparecer o Xerez (o vinho fortificado típico da Andalucía, sul da Espanha, onde o escritor viveu por anos) e o Anís del Mono. Há quem diga que Hemingway tinha uma certa preferência por bebidas à base de anis. Sua obra não confirma essa suposta predileção, pois em cada um de seus livros o personagem adota um estilo de bebida e para cada livro há um drinque de eleição.


Acima, Hemingway de bigode, sorri enquanto se refresca com um drinque.

Drinque americano

Um bom exemplo é o chamado drinque americano, descrito como a mistura de Campari, vermute doce e água com gás. Teria sido criado em Torino, norte da Itália, nos idos de 1860. Provavelmente o autor conheceu esse coquetel na Primeira Guerra Mundial. Ele serviu na Itália durante o conflito como motorista de ambulância da Cruz Vermelha.

Em “Paris É uma Festa”, livro de memórias publicado em 1964, há um personagem que o visita frequentemente no hospital em que se recupera, levando a tiracolo garrafas de Campari e de vinho Marsala, também um fortificado, produzido na Sicília.

Atualmente, o então chamado “drinque americano” volta à moda sob o nome de Negroni, agora sem água gaseificada, mas com gin.


Estátua de bronze do escritor no bar Floridita, em Havana, Cuba
Hemingway bebericando em Madri com a atriz Lauren Bacall

Dry martini

O Dry Martini, celebrizado pelo personagem James Bond do escritor britânico Ian Fleming (1908/1964), também tem destaque na obra de Hemingway. Na novela “Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”, a bebida acompanha os personagens em seus momentos de prazer

O absinto, talvez por seu teor tão elevado de álcool e por ter a fama de provocar diferentes reações, foi mencionado em várias obras do autor. Em um deles, “Um País Estranho”, a protagonista experimenta o tal absinto, e tem a sensação poder fazer qualquer coisa... A bem da verdade, o absinto é considerado uma bebida realmente perigosa.

Na obra “As Ilhas da Corrente” , aparece o drink Greem Isaac, à base de gin, suco de limão, água de coco, gelo picado e um pouco de angostura para dar cor. Um drink das tropicais Bahamas, leve, para ser tomado no verão.

Em “Jardim do Éden”, ele apresenta um coquetel diferente, propondo um novo jeito de se provar o velho e bom Armagnac. O drinque é composto de Armagnac e soda. O Armagnac é um brandy (destilado de vinho) com 45% de álcool, e a soda o torna mais refrescante. Para Hemingway, o Armagnac-soda deve ser tomado antes das refeições.

O autor também sugere, no mesmo livro, a opção da troca da soda pela água com gás que, de acordo com Hemingway, realça o sabor do Armagnac.


O mojito, drinque de rum com limão e hortelã, típico de Cuba.

O mojito

É voz corrente que o drink preferido de Hemingway teria sido o mojito, típico de Havana, Cuba, onde o escritor ia todos os anos pescar o marlin oceânico. Isso pode ser lenda… De acordo com estudiosos da obra do escritor, não existe nada que comprove essa afirmação.

Essa predileção teria sido inventada por um jornalista e um dono de um bar em Cuba, nos anos 1950. A história, repetida, acabou sendo levada a sério e até hoje o bar recebe visitas como se realmente o autor o frequentasse, e tivesse esse drinque como seu preferido. O mojito nem mesmo é citado em nenhum de seus livros.

A bebida desse estilo que se encontra no livro “Ilhas da Corrente” é o daiquiri. Menos famoso hoje em dia, é feito de rum, suco de limão, açúcar… Essa composição lhe lembra algum outro?