• Vinho Magazine

Viagem ao Chile

Descubra algumas das mais charmosas vinícolas chilenas, em uma viagem a ser feita!

POR AGUINALDO ZACKIA ALBERT



Visito o Chile e acompanho sua atividade vinícola desde meados dos anos 1990. Foram nove ou dez viagens feitas ao país, quer realizando reportagens, quer conduzindo grupos de enoturismo ou garimpando bons vinhos para importadores brasileiros. Em todo esse período, o que pude perceber foi um movimento ascendente em termos de qualidade, produção e prestígio internacional de seus produtos.

Esse belo país, vocacionado para a produção vinícola, iniciou sua saga pela trilha dos vinhedos no longínquo ano de 1548, chegando aos nossos dias com uma produção consistente e expressiva. No século 19, salvo que foi –por suas excepcionais condições naturais– do flagelo da filoxera, recebeu em suas terras uma leva de enólogos europeus, já sem trabalho no Velho Mundo, que trouxeram consigo toda sua experiência na elaboração de bons vinhos. Os séculos 20 e 21 consolidaram a posição de destaque, e o país produz hoje uma enorme gama de vinhos de alta qualidade.

A maior parte da produção é direcionada para a exportação, grande parte para o Brasil. Com produção de 12,8 milhões de hectolitros em 2015, o Chile lidera o ranking de exportadores para o nosso país, onde 45,9% do vinho importado é chileno. Uma marca expressiva e que tende a crescer, graças aos bons preços do produto e à grande aceitação que tem junto aos consumidores.

Depois de algum tempo –cerca de três anos– sem visitar o país andino, pude voltar agora, graças ao convite que recebi da empresa Brandabout, que se dedica a divulgar o vinho do país. Foram 7 dias, no frio mês de julho, de atividade frenética, com muitas viagens, tendo como guia a competente Susana González ao volante e um colega jornalista carioca como companheiro. Dez vinícolas foram visitadas além de recantos prazerosos para os amantes do turismo do vinho.

Depois de dois dias inesquecíveis no hotel Viña Vik, partimos para o Vale de Colchágua, onde um dos proprietários da vinícola Luis Felipe Edwards nos aguardava. O jovem Ignacio Edwards fez as honras da casa e nos levou para conhecer seus melhores vinhedos numa das mais belas zonas visitadas. Seguiu-se uma megadegustação de 14 vinhos, com especial destaque para o Doña Bernarda 2012, um corte de Cab. Sauvignon, Syrah, Carmenère e Petit Verdot. Os vinhos desse produtor são encontrados entre nós no Pão de Açúcar.

Ainda no Vale de Colchágua, visitamos a Via Wines, que produz vinhos corretos em larga escala. O Pão de Açúcar também é seu distribuidor no Brasil. Após a degustação e o jantar, fomos abrigados nessa que foi a mais fria noite chilena no casarão dos proprietários, de onde partimos, descansados e ávidos por mais visitas, na manhã seguinte.



O francês Dominique Massenez deixou sua Alsácia natal nos anos 1990 para aportar em terras chilenas e, em Requinoa, no Alto do Vale do Rapel, fundar a vinícola Château Los Boldos. Muitos anos mais tarde, vendeu a grande vinícola ao grupo português Sogrape, mas não aguentou a distância do mundo dos vinhos e inaugurou a bodega boutique Donum Massenez, alguns anos mais tarde. Fomos recebidos por ele em seu refinado restaurante Entre Rios, onde nos foi servida a melhor refeição da viagem, o que confirma sua fama de um dos melhores restaurantes de todo o Chile. Muito simpático e de personalidade cativante, nos contou toda sua saga, inclusive sua relação com o saudoso deputado Ulysses Guimarães, para quem vendia o famoso licor de peras alsaciano que era servido aos membros do legendário grupo de políticos brasiliense do “Club do Poire”, famosíssimo nos anos 1980. Durante o divertido almoço francês, degustamos alguns de seus vinhos, dentre eles o ótimo Donum Red Assemblage 2010. O enoturista que estiver visitando a região não deve deixar passar a oportunidade de visitar o restaurante, que tem uma bela loja onde podem ser encontrados os vinhos do produtor além de suas importações francesas. Inclusive o licor de Poire... Massenez não tem, no momento, importador para o Brasil.



Não há nada que se iguale ao prazer de beber grandes vinhos com grandes amigos. E foi o que fizemos na tarde desse mesmo dia, quando visitamos, no Vale de Colchágua, o produtor Casa Silva, que tem como enólogo-chefe essa personalidade do vinho que é Mario Geisse. Chileno de nascimento, mas também brasileiro por afeto, devido aos longos anos que morou entre nós, Geisse é um dos mais respeitados nomes da enologia chilena e brasileira. Essa figura simpaticíssima e de marcante personalidade, divide seu tempo entre o Chile e o Brasil, onde é proprietário da Cave Geisse, que produz um dos melhores espumantes brasileiros, em Pinto Bandeira. Além da recepção calorosa, Mario nos propiciou uma verdadeira aula sobre o terroir chileno e a uva Carmenère, em pleno vinhedo, que depois se estendeu pela degustação que acompanhou o delicioso jantar no aconchegante hotel da vinícola, onde passamos a noite. Uma visita excelente sobre todos os aspectos, regada a vinhos notáveis como o Casa Silva Microterroir 2009, do vinhedo Los Lingues, o melhor Carmenère que já provei. A Vinhos do Mundo importa seus vinhos.

Na região de Alto Maipo, não muito longe de onde estávamos, os enólogos Germán Lyon e Maria José Concha nos aguardavam na Perez Cruz. As primeiras terras foram compradas em 1963 e a primeira safra surgiu em 2003. Essa vinícola familiar, mas de bom porte, produz apenas vinhos tintos sobre solos de aluvião e coluvial (pedras que caíram dos Andes), terroir ideal para esse tipo de uva. Os Cabernets Sauvignon são ótimos, assim como o Quelén 2012 (40% Petit Verdot, 30% Carmenère, 30% Cot), topo de gama da vinícola, que provamos durante o almoço servido na “casona” dos proprietários, a cerca de 2 km da bodega.



Da região do Vale Central rumamospara o Vale de Leyda (Vale de San Antonio) no litoral, próximo ao oceano Pacífico, região mais fria, com um terroir ideal para a produção de vinhos brancos, além do Pinot Noir e da Syrah. A Viña Ventolera era o nosso destino, uma vinícola de ponta que elabora vinhos de alta qualidade, muito refinados, sob a tutela dos sócios Vicente Isquierdo e Stephano Gandolini. Este último nos recebeu de forma muito amável. Ainda não conhecia o produtor e confesso que fiquei bastante impressionado com a nitidez e a qualidade de seus vinhos. Nos seus 160 hectares são produzidas apenas 55 mil garrafas, exportadas para os mais exigentes mercados mundiais. Stephano Gandolini é um entusiasta dos bons vinhos e trabalha com paixão. Como prêmio, seus vinhos conseguiram reconhecimento mundial e são muito disputados. Seu Ventolera Cerro Alegre Sauvignon Blanc abocanhou 95 pontos no guia Descorchados. Dei uma nota bastante alta ao seu delicioso Pinot Noir Claro de Luna.

Dois dias depois, Gandolini nos acompanhou ao seu novo projeto, desta vez sem sociedade e dedicado somente aos tintos, na região de Maipo Andes. Mais uma grande e positiva surpresa! Da Gandolini, sua microbodega, sai uma minúscula produção de vinhos especialíssimos, como o sensacional Gandolini Single Vineyard 2011. A prestigiosa Wine Society de Londres se abastece com ele, e seu comprador, o inglês Toby Morrhal, era esperado na tarde desse mesmo dia para degustar e fazer suas compras. Infelizmente esses vinhos não chegam ao nosso país, o que me forçou a encher um pouco mais a minha mala.



Mais dois produtores de regiões diversas nos aguardavam: a Viña Falernia, no Vale de Elqui, e a Viña Von Siebenthal, no Vale do Aconcágua. Bem distante de Santiago, a visita à Viña Falernia nos obrigou a pegar um voo de Santiago para La Serena. Em uma de minha viagens ao Chile, cerca de 5 anos atrás, havia visitado essa bodega modelar, levando comigo meu grupo de enoturismo Degustadores Sem Fronteiras, de onde saí com a melhor das impressões. Os primos italianos Aldo Gramola e Giorgio Flessati, este último enólogo que então trabalhava na região de Trento, aceitaram o desafi o de, em 1988, fundar a bodega nessa remota região, situada a 520 km ao norte de Santiago. Os fatores climáticos e micro- -climáticos foram cruciais para a escolha do local da empresa, cujo objetivo era a produção de vinhos fi nos. Antes da visita, fi zemos um interessante tour por essa árida e interessante zona, visitando seus principais vinhedos. Fomos então almoçar no aprazível Restaurante El Molle, com ótima gastronomia local, cujos pratos foram escoltados por alguns dos vinhos de Giorgio. O restaurante fi ca dentro do Refúgio El Molle, um complexo turístico com hotel confortável, SPA e centro cultural, uma boa dica para aqueles que visitarem a região. Depois, já na vinícola, participamos da degustação, conduzida pelo simpático Giorgio, que nos falou do grande comprometimento da bodega com as causas ambientais, proteção da fl ora local e os processos orgânicos utilizados. Foram degustados 11 vinhos, todos muito bons e expressando bem o terroir local, um dos focos dos produtores. Entre brancos e tintos poderíamos mencionar o Pedro Ximenez 2016, fresco e mineral, com caráter, e o Syrah Reserva Titon 2013, carnudo e especiado. Seus vinhos chegam até nós através da importadora mineira Premium.



Já de noite, de volta a Santiago, aproveitamos uma boa noite de sono para, na manhã seguinte, rumar para o Vale de Aconcágua, não tão longe da capital quanto Elqui. No caminho, paramos num tradicional e muito simples restaurante da região,o El Torofrut, situado à beira da estrada, especializado em comida local. O restaurante estava lotado, o que –me disseram– acontece sempre, mas valeu a pena esperar alguns minutos por nossa mesa e nos deliciarmos com uma fumegante La Plateada, carne cozida ao forno. Bem diferente de Elqui, a paisagem local é verdejante, cheia de montanhas, bem europeia. Talvez esse fator tenha motivado o advogado suíço Mauro Von Siebenthal a abandonar brilhante carreira em sua terra natal e mudar-se para o Chile onde, em 1998, plantou seus primeiros vinhedos em Panquehue. Foram dez hectares, no início, e hoje a Viña Von Siebenthal possui 30 ha. A propriedade é belíssima, decorada com muito esmero e bom gosto. Mauro estava acamado e sua simpática esposa nos recebeu, mostrou- nos a propriedade e conduziu a degustação de quatro de seus vinhos de alta gama. Todos excelentes. Dois grandes vinhos encerraram nossa viagem; o Montelig Gran Reserva 2009, um corte de Cab. Sauvignon, Petit Verdot e Carmenère, muito complexo, com notas de cassis, menta e carvalho tostado (RP: 94), e o sensacional Titay de Cristóbal 2011 (91% Carmenère, 9% Petit Verdot), de grande estrutura, macio e muito elegante. Um vinhaço que obteve 97 pontos de Robert Parker! Nada como fechar uma viagem com chave de ouro!

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