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Vinho & gripe

O vinho pode ajudar a enfrentar a gripe e os resfriados, desde que tomado com moderação

POR: JAIRO MONSON DE SOUZA FILHO

O inverno está a pleno vapor e com ele os resfriados e as gripes se elevam. A estação mais fria também convida ao vinho, que além de prazeroso, age como uma barreira à manifestação dessas moléstias.

O resfriado e a gripe são infecções respiratórias causadas por vírus, muito prevalentes, sobretudo no inverno. A principal diferença entre elas é a intensidade do quadro clínico. No resfriado, as manifestações clínicas são mais brandas e dificilmente têm complicações. A gripe apresenta sintomas semelhantes, mas com maior intensidade e uma incidência grande de complicações, algumas delas graves e, às vezes, mortais. Em todo o mundo, a Organização Mundial da Saúde estima que morram anualmente entre 250 mil a 500 mil pessoas devido à gripe. Por isso preocupa tanto.



A gripe espanhola foi a pandemia mais letal da história da humanidade. O ápice dessa moléstia foi há exatos 100 anos. Estima-se que tenha atingido entre 50% e 70% de toda a população mundial e tenha vitimado 5% dela. Matou muita gente, inclusive no Brasil.

Talvez o caso mais curioso tenha sido o de Francisco de Paula Rodrigues Alves (07.04.1848 - 16.01.1919), o 5º presidente do nosso país. Rodrigues Alves foi reeleito e não conseguiu tomar posse do seu segundo mandato porque foi vítima da gripe espanhola. Justamente ele, que determinou a campanha de vacina obrigatória contra a varíola, em todo o território nacional, atendendo a indicação do grande sanitarista Osvaldo Cruz. Dessa maneira Rodrigues Alves deu uma contribuição importante para a erradicação desta doença tão grave.

No auge dessa pandemia na Europa, o transporte dos enfermos e defuntos em Portugal era feito em macas pelos bombeiros. Eles acreditavam piamente que o consumo do Vinho do Porto ajudava a prevenir essa terrível doença. Eles usavam habitualmente duas taças desse vinho com a finalidade de se proteger do contágio. A primeira taça era para bochechar; a segunda deglutiam. Na época não foi feito nenhum estudo para avaliar esse efeito, mas ficou o relato e a crença. A ciência aprendeu que há muita verdade nas crenças populares.

O vinho hoje não está apenas nas mesas das refeições, mas também nas bancadas dos laboratórios. Com tais estudos surgiram evidências científicas mais sólidas do efeito protetor do vinho diante dessas moléstias.

Em 2002 foi publicada uma pesquisa feita com professores de cinco universidades da Espanha. O professor Bahi Takkouche e seus colaboradores avaliaram a relação entre a ingesta de vinho e a incidência de resfriado comum. Esse estudo foi feito entre os anos de 1998 e 1999 na Universidade de Santiago de Compostela, e avaliou 4.272 professores. Eles constataram que quem bebia mais do que 14 taças de vinho por semana tinha 40% menos resfriados do que os abstêmios e do que aqueles que bebiam cerveja ou destilados. Os cientistas observaram também que o efeito era mais significativo para os que bebiam vinho tinto. Estudos observacionais apenas sugerem; não definem a relação causal. Mas quando os resultados são tão expressivos como este, chamam muito a atenção.

O professor Jacques Masquelier, da Universidade de Bordeaux, França, em um estudo publicado em 1979, mostrou o mecanismo pelo qual o vinho e, também o suco de uva, têm uma ação antiviral. Sabe-se que o vírus, para causar doença, como regra, tem que invadir a célula. É só dentro da célula que ele é capaz de causar dano. Esse cientista descobriu que as procianidinas –um dos tantos componentes do vinho– têm uma grande afinidade químico-estrutural pela capa (a camada mais externa) de alguns vírus, onde se ligam. Os vírus que carregam consigo as procianidinas não conseguem entrar nas células e, por consequência, causar dano.



No ano passado, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis, publicaram um estudo interessante em que mostram outro mecanismo pelo qual o vinho (e outros alimentos ricos em flavonoides) protegem das manifestações da gripe. Os flavonoides quando sofrem a ação da bactéria Clostridium orbiscindens, que habita normalmente o intestino, produzem um metabólito chamado desaminotirosina (também conhecido como DAT). Esta molécula estimula a produção de interferon, que aumenta a resposta imune no organismo. Eles fizeram estudos com dois grupos de ratos. Todos os ratos foram inoculados com a mesma quantidade de vírus da gripe e só para um grupo foi dada alimentação rica em flavonoides. A carga viral e as infecções eram basicamente as mesmas em todos os ratos. Mas no grupo que recebeu alimentos ricos em flavonoides, o sistema imunológico impediu que os órgãos sofressem danos maiores –e assim as manifestações da gripe foram muito atenuadas. Em que pese esse estudo ter sido feito com ratos, ele é muito motivador porque (1) o Clostridium orbiscindens habita normalmente o intestino o humano, (2) a modulação do sistema imunológico pela DAT já foi demonstrada em outros estudos e (3) o efeito se dá por estímulo do sistema imunológico, o que talvez tenha implicação em outras situações clínicas.

São tantos os mistérios dentro de uma taça de vinho! Que outro alimento é tão palatável, prazeroso e conspira tanto para a saúde do homem? Essa bebida só pode mesmo ter sido concebida pelos deuses!